17 de set. de 2010

amamentar

Vislumbramos o bom e o bonito quase sempre como uma coisa agradável e sem dor.
Fazemos uma tela mental da situação perfeita, imaginando tudo bonito: a agradável luz do dia, as cores preferidas, os sons harmônicos etc.
E era assim que eu imaginava - quando nasceu meu primeiro filho - que seria a amamentação: a cadeira de balanço, os raios de sol na transparência das cortinas, o tom pastel, o bebê rosado...Nunca, nunca, nunca me falaram que amamentar doía. Eu fiquei perplexa, não pela dor, mas pela falta de informação:
-Será que não queriam me assustar?
-Será que só doía em mim?
Socorro! Mãe! E minha mãe me olhava com aquela cara dizendo:"É assim mesmo minha filha".
Detalhe: sou a oitava filha.
Meu filho nasceu enorme, com uma fome de gigante e simplesmente sugou tudo que eu tinha e o que eu não tinha também. Que desespero!
Fiquei pensando que não me falavam, porque amamentar é super importante e não queriam me desencorajar. Mas por que o bonito não pode ser dolorido? O próprio parto já é o primeiro exemplo deste caso bonito com dor. Os músculos dos atletas que treinam horas para superar recordes. As bolhas dos corredores nos pés, das ginastas nas mãos. As horas que um escritor dedica para escrever um livro. Que um professor leva para preparar uma aula.
A dor de um esforço para o nascimento de uma coisa boa, legal, bonita. A dor justificando seu fim.
No final isso tudo durou os primeiros longos dias. Sabe aqueles eternos ! E depois o corpo foi se acostumando e nós fomos nos ajeitando! As experiências foram, enfim, maravilhosas.
Quando minha segunda filha nasceu tudo mudou, continuaram as dores terríveis dos primeiros dias, mas ela era tão feminina e delicada que tinha um ritmo diferente, e mamava devagar , pausadamente. O quarto tinha, então, musica clássica e cortinas transparentes, mas meu corpo meio que não entendeu, estava acostumado com um fluxo maior e começou a produzir mais do que ela consumia, muito mais.....Mastite !!
Um nova jornada dolorida veio e foi, um novo aprendisado.
O terceiro filho nasceu, e agora, nada mais era um mistério eu já havia percorrido uma longa kilometragem nesse assunto, era quase uma expert.
A dor é inevitável, mas o sofrimento opcional.
E é por isso que eu sinto muita saudade daqueles bebes rosados, mamando na cadeira de balanço no por do sol de Vivaldi.